O Fogo no Cerrado, vilão ou Aliado?
O Cerrado brasileiro, a savana mais biodiversa do mundo, coexiste com o fogo há milênios. Evidências ecológicas, palinológicas e filogenéticas indicam que os regimes históricos de fogo contribuíram para moldar a estrutura, a biodiversidade e as funções ecossistêmicas do bioma [1].
O fogo, em sua ocorrência natural, é elemento integrante da dinâmica do Cerrado. No entanto, a alteração dos padrões de ocorrência, de intensidade e frequência, resultantes da ação humana, têm impactado negativamente na estrutura e funcionamento dos ecossistemas de Cerrado [2]. As alterações no uso do solo, o manejo incorreto, a introdução de espécies exóticas invasoras, a fragmentação das paisagens, juntamente com as mudanças climáticas, modifica os regimes de incêndios, com consequências incertas, mas possivelmente adversas, para os ecossistemas do Cerrado [3].
A política de “fogo zero”, adotada por décadas, acumula biomassa seca, material combustível seco que alimenta incêndios de maior intensidade e magnitude, especialmente no final da estação seca [4]. Esses eventos causam alta mortalidade da fauna e flora, homogeneizam paisagens e colocam em risco vidas humanas , gerando custos exorbitantes de combate [4].
Para lidar com a complexidade do fogo no Cerrado de forma científica e adaptativa, o MIF (Manejo Integrado do Fogo) propõe uso estratégico de fogo controlado, considerando os objetivos de conservação e o conhecimento local. Assim, cria-se “mosaicos de queima”, áreas em diferentes estágios de recuperação pós-fogo, o que aumenta a resiliência da paisagem. Queimadas prescritas consomem o excesso de biomassa acumulada [4], reduzindo significativamente o risco de grandes incêndios no final da estação seca, que tem maior potencial destrutivo [5].
Seguindo esta filosofia, o manejo realizado na área do C3 priorizou a diminuição da biomassa combustível, através da supressão mecânica (em meados da estação chuvosa e meados/final da estação seca) das gramíneas exóticas invasoras.

Com esta atividade, diminuímos significativamente o material combustível e a altura das gramíneas exóticas. Além do manejo do estrato herbáceo, procuramos manter a umidade da biomassa e solo, através de regas semanais periódicas, realizadas pelo batalhão de brigadistas da ESECAE e brigadas voluntárias.
Mesmo com estas medidas, no dia 12/09, por volta de 9:30 da manhã, ocorreu um incêndio criminoso na região do Parque Sucupira. O fogo, ao adentrar a área do C3, perdeu intensidade, devido à falta de material combustível em quantidade e qualidade ótimas para queima. Para evitar a perda de umidade do solo, a biomassa encontrava-se cuidadosamente espalhada rente ao solo, na área toda (7 ha).

A área do C3, devido ao manejo, encontrava-se mais úmida e com menor quantidade de biomassa combustível que as áreas adjacentes, ou seja, onde foi realizado o manejo do material combustível, o ecossistema mostrou-se resistente, e potencialmente, resiliente à passagem do fogo. A altura das chamas foi bem menor do que observado nas adjacências, não atingindo a gema apical de muitas plantas (e mudas), que é a parte responsável pelo crescimento da planta.
Como resultado, a expectativa é uma taxa de sobrevivência de indivíduos regenerantes significativamente maior que o observado nas áreas adjacentes. Isso demonstra que o manejo previne a propagação do fogo e protege os investimentos em restauração.
C3: Ensino, pesquisa, extensão, conservação, gestão de C e ação climática

O C3 é uma iniciativa do Centro de Gestão e Tecnologia da Agricultura Familiar (Cegafi) da Universidade de Brasília, em colaboração com o IBRAM e o INCRA, representa um passo adiante na integração entre conservação, ação climática, ensino, pesquisa, extensão e gestão sustentável de Carbono. Desta forma, o C3 visa mitigar os impactos das ações do CEGAFI em um cenário de emergência climática, promovendo a sustentabilidade e a conservação dos biomas Cerrado, Amazônia e Caatinga [6].
A conexão entre o manejo de fogo e a compensação de C é direta. O Cerrado armazena quantidade massiva de C, no solo, na biomassa aérea e em seus vastos sistemas radiculares [7]. Incêndios liberam esse carbono para a atmosfera, contribuindo para o aumento da concentração de gases de efeito estufa e aerossóis. Ao reduzir a frequência e intensidade de incêndios, o MIF ajuda a manter o C estocado.
Além disso, ao proteger a vegetação nativa e as áreas em restauração, como as do projeto C3, o manejo garante que as plantas continuem a realizar a fotossíntese, fixando C da atmosfera na vegetação. Cada árvore que sobrevive a um incêndio graças ao manejo é um sumidouro de carbono que continua ativo.
O C3 atua em diversas frentes, como a restauração do Parque Sucupira em Planaltina-DF e a cooperação com a Escola Francesa de Brasília, restaurando áreas de Cerrado e promovendo a educação ambiental junto às escolas de Sobradinho e Planaltina. Essas ações restauram os serviços ecossistêmicos e podem ser associadas a créditos de carbono, após quantificação de emissão e conversão em árvores plantadas.

O Cegafi está alinhado à percepção de que o futuro da conservação do Cerrado passa por uma mudança de paradigma. O fogo pode ser um poderoso aliado na construção de paisagens mais resilientes, na proteção da biodiversidade e na luta contra as mudanças climáticas. Iniciativas como o C3 são fundamentais para demonstrar na prática que a associação entre ensino, pesquisa, extensão, gestão estratégica de C e proteção dos ecossistemas podem gerar benefícios múltiplos, garantindo que o Cerrado continue a prestar seus valiosos serviços ecossistêmicos para as presentes e futuras gerações.
Referências
[1] Durigan, G., & Ratter, J. A. (2016). The need for a consistent fire policy for Cerrado conservation. Journal of Applied Ecology, 53(1), 11-15.
[2] Pivello, V. R. (2011). The use of fire in the Cerrado and Campos Sulinos of Brazil: a review. Revista Brasileira de Botânica, 34, 555-568.
[3] Segura-Garcia, C., Alencar, A., S. Arruda, V. L., Bauman, D., Silva, W., Conciani, D. E., & Oliveras Menor, I. (2025). The fire regimes of the Cerrado and their changes through time. Philosophical Transactions B, 380(1924), 20230460. https://doi.org/10.1098/rstb.2023.0460
[4] Schmidt, I. B., Moura, L. C., Ferreira, M. C., Eloy, L., Sampaio, A. B., Dias, P. A., & Berlinck, C. N. (2018). Fire management in the Brazilian savanna: First steps and the way forward. Journal of Applied Ecology, 55(5), 2094-2101.
[5] Hoffmann, W. A., & Solbrig, O. T. (2003). The role of fire in the recruitment of savanna trees. Ecology, 84(12), 3185-3190.
[6] CEGAFI. (s.d.). Cegafi Compensa Carbono. Recuperado de
[7] Paiva, A. O., Rezende, A. V., & Pereira, R. S. (2011). Estoque de carbono em cerrado sensu stricto do Distrito Federal. Revista Árvore, 35(3), 521-531.




