A Grande Onda Digital que Está Chegando ao Campo - e o Que Ela Pode Engolir
- comunica1980
- há 1 dia
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O Brasil está acelerando a digitalização da agricultura familiar por múltiplas frentes institucionais, mas a capacidade real de uso dos agricultores não avança no mesmo ritmo. O ponto crítico não é a falta de política digital; é a ausência de letramento digital como pré-condição de acesso.
A onda digital já está no campo
A falta de infraestrutura tecnológica na agricultura familiar não é novidade para ninguém. Afinal, “ir para a roça” sempre foi sinônimo de desconectar, esquecer a internet e focar na natureza. Mas como o agricultor familiar, que mora na roça, se vira nesse mundo digitalizado, se nem sinal de celular ele tem? Será que ninguém faz nada para ajudar essas pessoas?
A resposta curta a essa pergunta é: sim, estão fazendo. Desde 2002, por exemplo, o Governo Federal lançou o programa “Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão (GESAC)”, política pública que até hoje leva conectividade via satélite para áreas remotas e sem acesso adequado à internet.
Ainda podemos citar, em relação às políticas públicas que levam tecnologia aos nossos agricultores familiares, a criação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), obrigatório desde 2012 e o portal gov.br lançado em 2019. No mesmo ano, a iniciativa Câmara Agro 4.0 - instância estratégica de discussão e integração de esforços para agricultura digital no Brasil foi lançada pelo Ministério da Agricultura (MAPA). Já em 2023, foi lançado o programa Rural + Conectado, também do MAPA, que incentiva prestadoras de serviços de telecomunicação a expandir seus serviços em regiões de zona rural, em locais listados como prioritários pelo Governo Federal.
Em dezembro de 2017, a Agricultura Familiar ganhou importante evidência internacional. Foi nesse ano que a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em sua 72ª sessão, proclamou a “Década Para a Agricultura Familiar 2019-2028”, fruto de estratégias do “Ano Internacional da Agricultura Familiar – 2014 (AIAF)” promovido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
O abismo entre infraestrutura e acesso
Como podemos perceber, políticas públicas não faltam, inclusive com importante atenção internacional para o tema. Mas mesmo assim, percebemos nos rincões da agricultura familiar uma presença desigual e insuficiente de infraestrutura e utilização dos meios digitais. A pergunta que mais incomoda nesse momento é: Se existe tanta atenção, tantas políticas públicas e tantas ações voltadas ao processo de digitalização da agricultura familiar, por que não vemos esses agricultores conectados? A resposta é bem mais profunda do que parece.
As políticas públicas existentes claramente não foram suficientes para digitalizar esse tão importante pedaço rural do Brasil. Por isso, novas políticas ainda tentam romper as barreiras da inclusão tecnológica e digital no campo. Nesse exato momento, estão sendo desenvolvidas novas maneiras para que o agricultor familiar acesse tecnologias cada vez mais avançadas. Isso nos mostra que os processos de digitalização da agricultura familiar estão avançando, sim, ainda que sem resolver a parte mais importante para o sucesso desse progresso: a base social.
A metáfora da biblioteca: o erro de foco
Para finalmente responder à pergunta acima, metaforicamente, vamos imaginar um povoado isolado. Nesse povoado existem pessoas que são muito boas naquilo que fazem. Produzem, fazem escambo, transmitem ensinamentos. Porém, ninguém dessa comunidade sabe ler. Um dia, então, alguém da cidade olha para aquele pequeno povoado e decide ajudar. Resolve construir uma grande biblioteca, com toda a base de conhecimento do mundo, com a intenção de que aquelas pessoas consigam fazer coisas que nem imaginavam ser capazes. Não seria fantástico?
Acontece que, sem perceber, essa pessoa que com muito boa vontade tentava ajudar não se deu conta de algo muito importante: Se as pessoas não sabiam ler, do que serviria a mais bela e completa biblioteca do mundo?
Essa é a atual situação da nossa agricultura familiar: políticas públicas de inclusão digital que pouco agregam se não estiverem acompanhadas do devido letramento. E observamos também um efeito colateral devastador: os agricultores familiares que não sabem usar a tecnologia se afastam cada vez mais dela, causando um sentimento de exclusão ainda maior.
É muito importante entender o que essa analogia da biblioteca nos ensina, e é fácil traduzir em uma pequena (mas poderosa) afirmativa: infraestrutura tecnológica não é letramento digital.
Por que o letramento digital é crucial?
Ter essa infraestrutura pronta é muito importante, mas não suficiente. E fica evidente também que um curso técnico de tecnologia básica não fará com que os agricultores entendam exatamente o porquê de migrar sua atenção para o digital. Ao contrário, um curso técnico tem por objetivo ensinar a estrutura, procedimentos e funções, sem de fato ensinar a lógica social por trás daquela ação.
Letramento digital vai muito além de aprender técnicas de apertar botões, trazendo ao seu letrando a consciência e a autonomia necessárias para interpretar uma interface, navegar em sistemas, autenticar acessos e tomar decisões baseadas no que ele está vendo na tela à sua frente.
A análise realizada por RAIHER, STEGE E CARMO (2023) nos mostra que a média municipal de estabelecimentos da agricultura familiar com acesso à internet era de apenas 33%. Esses números ficam ainda menores, caindo para 23% no Nordeste e 17% no Norte do país.
Conclusão: O caminho a seguir
Voltando à metáfora da biblioteca, entendemos então que não adianta nada construir sem instruir. A construção dessa biblioteca sem ensinar leitura e interpretação de texto aos seus possíveis usuários demonstra uma clara falta de preparo da própria política de implantação. Na tentativa de levar uma nova forma de conhecimento sem observar de fato as necessidades sociais, acaba por trazer maior segregação, atingindo exatamente aqueles que deveriam estar sendo beneficiados. Ou seja, os investimentos em infraestrutura digital sem a devida capacitação do público-alvo mostram uma política pública ineficaz, levando ao agricultor familiar um processo intenso e silencioso de exclusão tecnológica.
As políticas não são o problema. Elas são, na verdade, parte da solução. Nas próximas semanas vamos nos aprofundar nessas políticas, mostrando o que há de bom (ou não) em cada uma delas, e como construir uma ponte segura entre agricultura familiar e o mundo digital.
Bibliografia consultada
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BUZATO, Marcelo El Khouri. Letramento e inclusão: do estado-nação à era das TIC. DELTA: Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada, São Paulo, v. 25, n. 1, 2009. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102-44502009000100001. Acesso em: 30 jul. 2026.
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RAIHER, Augusta Pelinski; STEGE, Alysson Luiz; CARMO, Alex Sander Souza do. A importância da internet na produtividade da agropecuária familiar e não familiar. [S. l.: s. n.], 2023. Disponível em: https://brsa.org.br/wp-content/uploads/wpcf7-submissions/16299/artigo-internet-agr-familiar-enaber.pdf. Acesso em: 30 jul. 2026.



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