EFAs e Pedagogia da Alternância
- comunica1980
- 25 de mar.
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Educação com Raízes: A Revolucionária Trajetória das Escolas Famílias Agrícolas (EFAs)
Você já parou para pensar na difícil escolha entre o direito de estudar e o amor pela terra e pela família? Por muito tempo, essa foi a realidade de milhares de jovens do campo no Brasil. Para conquistar um diploma, o caminho frequentemente levava ao êxodo rural, forçando muitos a deixarem para trás suas tradições, saberes ancestrais e o convívio comunitário em troca de uma educação urbana que muitas vezes ignorava a realidade do campo. No entanto, um modelo educacional inovador surgiu para mudar essa história: as Escolas Famílias Agrícolas (EFAs) e sua proposta transformadora, a Pedagogia da Alternância.
Neste texto, convidamos você a mergulhar na trajetória dessa proposta que não só ensina a ler e escrever, mas também promove a reexistência e a transformação do território com dignidade.
Onde Tudo Começou: A Semente Francesa
A história da Pedagogia da Alternância (PA) remonta ao sudoeste da França, em 1935. Naquela época, o padre Pierre-Joseph Granereau, sensibilizado pela realidade dos filhos de agricultores que precisavam abandonar os estudos para ajudar nas propriedades familiares, uniu-se a um grupo de camponeses para criar uma alternativa.
O objetivo era claro e audacioso: evitar que os jovens precisassem deixar o campo para estudar na cidade, o que frequentemente resultava no abandono definitivo das atividades agrícolas. Assim nasceu a primeira Maison Familiale Rurale (Casa Familiar Rural), em Lauzun, que estabeleceu um ritmo de aprendizado que intercalava a formação teórica na escola com a prática supervisionada nas propriedades familiares.
A Chegada ao Brasil: Resistência e Esperança no Espírito Santo
O modelo atravessou o oceano e encontrou solo fértil no Brasil em 1968, especificamente no estado do Espírito Santo. A iniciativa foi liderada por padres jesuítas, com destaque para o padre Umberto Pietrogrande, que fundou o Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (MEPES).
No Brasil, a PA surgiu como uma resposta política e social à "modernização conservadora" da ditadura militar, que priorizava o agronegócio exportador e marginalizava a agricultura familiar. As primeiras EFAs, localizadas em Anchieta e Alfredo Chaves, tornaram-se centros de resistência cultural, demonstrando que o campo é, sim, um espaço de saber e produção de conhecimento.
Como Funciona a Alternância?
A Pedagogia da Alternância não é apenas uma metodologia; é uma filosofia de educação integral que reconhece o trabalho como princípio educativo. Ela se organiza em dois tempos e espaços fundamentais:
Tempo-Escola: Período de formação teórica, sistematização de conhecimentos acadêmicos e convivência coletiva em regime de internato.
Tempo-Comunidade (ou Tempo-Sítio): Momento em que o jovem retorna à sua família e território para aplicar o que aprendeu, observar a prática agrícola e realizar pesquisas orientadas.
Para unir esses dois mundos, utiliza-se o Caderno da Realidade (ou de Campo), onde o estudante registra suas vivências, transformando a observação do cotidiano em objeto de estudo científico.
Os Pilares das EFAs e o Protagonismo Juvenil
As Escolas Famílias Agrícolas sustentam-se sobre quatro pilares essenciais:
Desenvolvimento do Meio: Engajamento para transformar a realidade local.
Associativismo: As escolas são geridas pelas próprias associações de pais e comunidades.
Formação Integral: Educação que abrange dimensões humanas, técnicas, éticas e políticas.
Pedagogia da Alternância: A estratégia didática integradora.
Esse modelo fortalece a autoestima do jovem rural, que deixa de ser visto como "atrasado" e passa a ser reconhecido como um sujeito histórico capaz de gerir seu próprio destino e o ofício de agricultor com inovação e sustentabilidade.
Conquistas Recentes e o Caminho à Frente
A luta por esse modelo educacional rendeu importantes conquistas na legislação brasileira. Recentemente, a Lei 14.767/23 incluiu formalmente a Pedagogia da Alternância na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Além disso, a Resolução CNE/CP nº 1/2023 definiu diretrizes curriculares que garantem o reconhecimento desse ensino tanto na Educação Básica quanto na Educação Superior.
A história das EFAs nos ensina que o conhecimento mais poderoso é aquele que floresce quando as mãos que trabalham a terra também seguram os livros. Educar no campo, com o campo e para o campo é, acima de tudo, um ato de amor, coragem e liberdade.
Referências Bibliográficas
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BRASIL. Lei nº 14.767, de 21 de dezembro de 2023. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), para incluir a pedagogia da alternância entre as metodologias adequadas à educação rural. Diário Oficial da União, Brasília, 2023.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP nº 1, de 16 de agosto de 2023. Dispõe sobre as Diretrizes Curriculares da Pedagogia da Alternância na Educação Básica e na Educação Superior. Diário Oficial da União, Brasília, 17 ago. 2023.
JAHNKE, Jefferson Fellipe et al. Pedagogia da alternância – integração entre campo, família e escola na formação de sujeitos do meio rural. Revista ERR01, São José dos Pinhais, v. 10, n. 5, p. 1-56, 2025.
QUEIROZ, João Batista Pereira de. Construção das Escolas Famílias Agrícolas no Brasil: ensino médio e educação profissional. Sociedade e Estado, Brasília, v. 19, n. 1, p. 247-278, jan./jun. 2004.
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WIKIPÉDIA. Escola Família Agrícola. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_Família_Agrícola. Acesso em: 23 mar. 2026.

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