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Mulheres na agricultura familiar: o que o estudo do Cegafi-UnB encontrou no Ceará

comunica1980
há 20 horas
4 min de leitura

Produzir alimentos dentro de uma unidade familiar envolve muito mais do que o momento do plantio ou da colheita. Alguém organiza o quintal, cuida dos animais, registra o que foi produzido, acompanha vendas, prepara produtos artesanais e sustenta a rotina de cuidados da família.


Na avaliação da Chamada Pública nº 05/2021 da Anater no Ceará, o Cegafi-UnB incluiu perguntas que ajudam a enxergar quem participa dessas tarefas. O estudo integra o Monitora Orgânicos, executado pelo MAPA, por meio da SDA, em parceria com a Universidade de Brasília.


O recorte não foi desenhado como uma pesquisa específica sobre desigualdades de gênero. Ainda assim, os dados permitem observar algo importante: as mulheres aparecem em várias dimensões da vida produtiva e familiar, e não apenas em uma função isolada.



O cuidado aparece primeiro - e isso já diz muito sobre a organização da unidade familiar


Os cuidados com a família foram a atividade feminina mais citada pelos entrevistados. O cuidado com o quintal e os animais domésticos também apareceu com grande frequência.


Essas atividades podem parecer distantes da discussão sobre produtividade quando observadas de forma separada. Na prática, fazem parte da infraestrutura cotidiana que permite que uma unidade familiar funcione.


Uma família agricultora não divide sua vida em compartimentos rígidos entre “produção” e “cuidado”. O trabalho doméstico, o manejo de pequenos animais, os quintais e a alimentação da família se conectam à própria organização produtiva.


Por isso, tornar essas tarefas visíveis é importante para compreender a realidade que uma política de ATER encontra quando chega ao território.



Mas as mulheres também aparecem diretamente na geração de renda


O estudo mostra que a participação feminina não fica restrita ao cuidado. Mais da metade dos entrevistados apontou as mulheres também na produção voltada à venda.


Elas aparecem ainda no registro de informações sobre produção e comercialização e na produção artesanal. Isso coloca as mulheres em etapas diferentes da atividade econômica familiar: produzir, organizar, registrar e transformar produtos.


Em outras palavras, o mesmo conjunto de dados que mostra uma forte presença no cuidado também revela participação direta na geração e na organização da renda.


Essa sobreposição é central para interpretar o papel das mulheres na agricultura familiar. A produção não acontece apesar do cuidado: muitas vezes, os dois tipos de atividade são realizados pelas mesmas pessoas e sustentam conjuntamente a unidade familiar.



Registrar produção e vendas também é trabalho produtivo


Um dos achados menos óbvios do levantamento é a presença das mulheres no registro das informações de produção e vendas.

Essa atividade pode parecer administrativa, mas tem relação direta com a gestão da propriedade. Saber o que foi produzido, quanto foi vendido, quais produtos tiveram saída e como a renda circula é parte do processo de organização econômica.


Para uma OCS, esse tipo de registro ganha ainda mais importância porque rastreabilidade, controles de venda e informações de campo também fazem parte da organização da produção orgânica.


Quando a avaliação registra mulheres exercendo essas tarefas, ela ajuda a ampliar a ideia de participação produtiva para além do trabalho físico na lavoura.



O que esses dados não permitem afirmar?


É importante não transformar esse recorte em conclusões que o estudo não foi desenhado para sustentar.


A pesquisa não mede quantas horas as mulheres dedicam a cada atividade, quanto da renda controlam, como ocorre a tomada de decisão dentro das famílias ou se o trabalho é distribuído de forma desigual entre homens e mulheres.


Também não permite afirmar que a ATER alterou especificamente a participação feminina, porque esse não era o desenho da avaliação.


O que os dados permitem dizer é que, entre as famílias beneficiárias pesquisadas, as mulheres foram reconhecidas em atividades de cuidado, manejo, produção para venda, registro de informações e produção artesanal. Essa já é uma informação relevante para compreender o público atendido.



Por que isso importa para a assistência técnica?


Uma ação de ATER precisa dialogar com a organização real da unidade produtiva. Se mulheres participam da produção, registram informações, manejam quintais e desenvolvem atividades artesanais, elas não podem aparecer apenas como público secundário de processos formativos ou de orientação técnica.


Esse recorte sugere a importância de pensar horários, formatos de atendimento, conteúdos, canais de comunicação e estratégias de capacitação considerando quem efetivamente realiza as diferentes tarefas.


Também mostra por que a leitura do “chefe da família” não é suficiente para entender o funcionamento de uma propriedade. A gestão cotidiana pode estar distribuída entre diferentes pessoas, com responsabilidades que se sobrepõem.



Tornar visível também é prestar contas


Em uma avaliação de impacto, indicadores de renda e produção são fundamentais. Mas a caracterização de quem sustenta essas atividades ajuda a evitar que a prestação de contas transforme famílias inteiras em uma única unidade abstrata.


O recorte sobre mulheres acrescenta contexto aos resultados econômicos do estudo. Quando a pesquisa encontra mudanças em produção, comercialização ou organização, também é importante reconhecer que essas atividades são construídas por pessoas que ocupam funções diferentes dentro da família.


Ao publicizar esses dados, o Monitora Orgânicos registra uma dimensão concreta da realidade encontrada em campo e cria uma base para perguntas futuras mais específicas sobre acesso à renda, decisão, divisão do trabalho e participação das mulheres nas políticas de assistência técnica.


Esse é um dos papéis da avaliação pública: além de medir resultados, produzir informações que ajudem a enxergar melhor quem participa das políticas e como a vida produtiva está organizada nos territórios.


Fonte principal: CEGAFI-UnB. Estudo de Avaliação de Impacto - Chamada Pública 05/2021 da Anater no Estado do Ceará. Brasília, DF, 2026.

 
 
 

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