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Mulheres que Semeiam o Futuro: A Revolução Silenciosa da Agroecologia

  • comunica1980
  • 5 de mar.
  • 5 min de leitura

Elas sempre estiveram lá. Com as mãos na terra, o sol no rosto e a sabedoria de gerações

no coração. No entanto, por muito tempo, a história da agricultura foi contada no masculino,

deixando na sombra a força motriz que sustenta grande parte da produção de alimentos no

Brasil: as mulheres.


Hoje, no Dia Internacional da Mulher, queremos celebrar a revolução silenciosa que elas

estão liderando no campo — uma revolução chamada agroecologia. Quando se olha para os números, a invisibilidade se torna ainda mais evidente. As mulheres conduzem 45% de toda a produção agrícola do Brasil e são responsáveis pela

renda de 42,2% das famílias no campo.


Mesmo assim, apenas 19% das propriedades rurais estão registradas em seus nomes.

A verdade é que o trabalho feminino no campo, muitas vezes rotulado como "ajuda", é um

pilar econômico, social e ambiental. Dados de 2012 indicam que, das 42 horas de carga

global de trabalho das mulheres rurais no Brasil, somente 14 horas eram remuneradas —

contra 37 horas pagas aos homens.


Essa luta por reconhecimento não é exclusiva do Brasil. No Quênia, uma mulher chamada

Wangari Maathai (1940–2011) iniciou um movimento que mudaria o mundo. Ao fundar o

Movimento Cinturão Verde (Green Belt Movement), ela conectou a degradação ambiental

com a opressão das mulheres rurais. Maathai entendeu que empoderar mulheres para

plantar árvores era uma forma de lhes devolver o poder sobre suas terras, sua comida e seu

futuro. Sua visão lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz em 2004, tornando-a um símbolo

global da causa socioambiental.


Inspiradas por esse mesmo espírito, milhares de mulheres no semiárido brasileiro estão

reescrevendo suas histórias. Nesse dia 8 de março, queremos relembrar histórias de

empoderamento e transformação que vivemos com o Projeto Dom Hélder Câmara. Em

parceria com organizações como o CETRA e o Centro Sabiá, elas estão transformando a

realidade de uma das regiões mais desafiadoras do país. Os resultados são mensuráveis: o

projeto gerou um aumento de 28,4% no empoderamento das mulheres que receberam

Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), número que sobe para 33,8% para aquelas

que também receberam fomento produtivo.


Mas o que esses números significam na vida real?


Ceará: Quando a Terra Vira Liberdade


Em Quixadá, no Sertão Central do Ceará, 93% dos agricultores familiares nunca tinham

recebido assistência técnica antes do PDHC. Era como se existissem sem ser vistos. Foi

nesse contexto que Maria Alcy Pereira dos Santos, a Dona Alci, encontrou o projeto.


Divorciada, ela criou o filho sozinha e, com suas economias, comprou a própria terra. O que

antes era um espaço desorganizado e contaminado por agrotóxicos se transformou em uma unidade agroecológica de referência, com sistema integrado de criação de aves, hortaliças,

ovinos e suínos. Durante a pandemia, quando não conseguia vender, ela doava as

hortaliças para quem precisava mais. "Essa terra que possuo hoje significa tudo para

mim. É minha segurança, meu sustento e o alimento para minha família", diz ela.


Na mesma comunidade, Eleni Alves da Silva, conhecida como Boneca, enfrenta um

desafio a mais: não tem terra própria. Mas isso não a impede de ser agricultora, mãe solteira

de dois filhos, educadora e empreendedora ao mesmo tempo. Dos seus pequenos canteiros

de verduras e da criação de galinhas, ela tira o sustento da família e ainda vende nas feiras

de Quixadá e Quixeramobim. "É um trabalho difícil, pesado para uma mulher, mas não

deixa de ser um desafio incentivador para que eu continue na luta", afirma.


Pernambuco: Da Invisibilidade à Feira


Em Orobó, no Agreste Setentrional de Pernambuco, a realidade não era diferente. Dos

quase 1.900 estabelecimentos de agricultura familiar, 92% nunca tinham recebido

assistência técnica. Quando o PDHC chegou, em parceria com o Centro Sabiá, encontrou

mulheres que já trabalhavam muito — mas que, com apoio, passaram a trabalhar com

autonomia.


Renata Fernandes é um exemplo que resume bem essa transformação. Antes, ela fazia

farinha de mandioca e doava o excedente da produção. Quando a técnica sugeriu que ela

tentasse fazer beiju, ela duvidou de si mesma. Tentou assim mesmo. Hoje, seu beiju é

considerado o melhor do município. Ela recebe encomendas, comprou uma moto para fazer

as entregas e diz com o peito cheio: "Agora eu estou batalhando para mim mesma." Na

casa dela, a realidade mudou por completo: "quem chega em minha casa fica de

barriga cheia; agora a comida não falta"


Ao lado dela, Verônica Nascimento carregou por anos a dor de não ter o que dar de comer

aos filhos. "É triste você ter um filho, ele pedir uma coisa e você não ter o que dar para ele,

não ter o que dar de comer", recorda. Hoje, ela não só produz quase tudo o que a família

consome no próprio lote, como também desenvolveu um sal mineralizado para suas cabras

com produtos da própria terra — casca de ovo e cinzas. Mais do que isso, ela encontrou sua

voz. Participa de fóruns de mulheres, integra comissões de jovens multiplicadores da

agroecologia e venceu o medo de falar em público. "A gente era escondida, sem ter a

oportunidade de ser conhecida. Agora somos. Foi uma oportunidade. Ganhamos

liberdade! Agora vamos felizes para a feira"


Em Vertente do Lério, município vizinho, Ana Cláudia da Silva tinha 48 pés de maracujá e

não sabia bem o que fazer com eles além de vender a fruta no mercado. Com a chegada da

assessoria técnica, ela passou a cultivar produtos consorciados e aprendeu, pela internet, a

processar o maracujá de formas diferentes. Hoje, ela produz polpa, suco, mousse, bolo e

sorvete caseiro. Tem uma clientela fiel na feira de Surubim e é vice-presidente da

Associação de Agricultores e Agricultoras do Tambor e Adjacências. "Quando a gente teve a

oportunidade de vender na feira, vendeu a um preço melhor por ser um produto de base agroecológica. O que a gente vende na feira é o que a gente coloca em nossa mesa",

resume.


Agroecologia: Mais que Alimento, Liberdade


As histórias de Renata, Verônica, Ana Cláudia, Dona Alci, Boneca e tantas outras mostram

que a agroecologia é muito mais do que uma forma de produzir alimentos sem

agrotóxico. É uma ferramenta de libertação. Ao diversificar seus quintais, criar seus

próprios insumos e acessar mercados justos, essas mulheres estão quebrando ciclos de

dependência e construindo autonomia financeira de verdade.

Como aponta a professora Gema Galgani, socióloga rural especialista em mulheres e

agroecologia, "as mulheres têm buscado se organizar em sindicatos, associações,

cooperativas, grupos de trabalho para afirmarem seu protagonismo no campo rural e

têm desenvolvido lutas por direitos e políticas públicas que reconheçam suas

especificidades e necessidades".

Elas estão presentes na formação e no debate de questões estruturais, na defesa de seus

territórios, de seus corpos e de suas vidas.


Neste Dia da Mulher, ao celebrarmos essas protagonistas do campo, estamos celebrando

um futuro mais justo, sustentável e igualitário. Um futuro onde o trabalho de cada mulher

seja visto, valorizado e reconhecido. Um futuro que está sendo semeado, todos os dias, por

mãos femininas que cultivam não apenas a terra — mas a esperança.


Referências


[1] CETRA. (2023, 15 out.). Protagonistas do campo: conheça as valentes mulheres que

estão na linha de frente da agroecologia na comunidade Vila Rica, em Quixadá.

[2] FAO. (2018, 6 out. ). Mulher rural: a base da agricultura familiar que proporciona o

acesso à terra e a recursos produtivos.

[3] The Green Belt Movement. (s.d. ). Wangari Maathai.

[4] Projeto Monitora – CEGAFI/UnB. (2022 ). Relatório de Avaliação de Impacto do Projeto

Dom Hélder Câmara. Faculdade UnB Planaltina.

[5] Ávila, M. L. de; Miranda Filho, R. J. de (Coord.). (2022). Contribuição do Projeto Dom

Helder Câmara para fortalecimento da autonomia das mulheres e a segurança alimentar via

serviços de ATER. Faculdade UnB Planaltina.

 
 
 

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