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Impacto da ATER no Ceará: estudo do Cegafi-UnB revela efeitos sobre renda e produção orgânica

comunica1980
25 de set.
4 min de leitura

A Assistência Técnica e Extensão Rural pode orientar novas práticas, apoiar a organização da produção e aproximar agricultores de mercados. Mas, para uma política pública, saber que o serviço foi prestado é apenas o começo. A pergunta mais difícil é outra: o atendimento realmente produziu mudanças na vida das famílias?


Foi essa pergunta que orientou a avaliação da Chamada Pública nº 05/2021 da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater) no Ceará. O estudo foi conduzido pelo Cegafi-UnB no âmbito do projeto Monitoramento e Diagnóstico das Unidades de Produção Orgânica no Brasil - Fase Nordeste, o Monitora Orgânicos, executado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), por meio da Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA), em parceria com a Universidade de Brasília.


A Chamada Pública financiou serviços de ATER para agricultores e agricultoras vinculados a Organizações de Controle Social (OCS). Essas organizações têm papel importante na produção orgânica voltada à venda direta: reúnem agricultores, apoiam mecanismos de controle social da qualidade orgânica e ajudam a conectar produção, organização coletiva e comercialização.



Uma avaliação feita para medir mudanças, não apenas atividades


O estudo não foi desenhado para responder apenas quantas visitas técnicas ocorreram ou se os agricultores gostaram do atendimento. A proposta foi verificar se as famílias que receberam ATER apresentaram resultados diferentes de famílias semelhantes que não receberam o serviço.


Para isso, a equipe entrevistou 241 famílias em Caucaia, Chorozinho, Itapipoca, Paracuru, Pindoretama e Trairi. Destas, 91 haviam sido beneficiadas pela Chamada Pública e 150 compuseram o grupo de comparação. As informações sobre produção, vendas, autoconsumo e renda tiveram 2024 como referência.


A comparação foi realizada com o Propensity Score Matching (PSM), uma técnica estatística que aproxima famílias com características observáveis semelhantes. Em termos simples, o método procura construir uma comparação mais justa: em vez de colocar lado a lado produtores muito diferentes, busca aproximar unidades familiares com perfis parecidos e verificar o que muda entre quem recebeu ATER e quem não recebeu.


Essa escolha metodológica é importante porque renda e produção dependem de muitos fatores. Localização, escolaridade, idade, perfil sociocultural e acesso a serviços podem influenciar os resultados independentemente da política. O pareamento não elimina todas as fontes possíveis de diferença, mas aumenta a robustez da comparação e permite estimar os efeitos associados à intervenção com mais segurança.



Onde apareceram os principais efeitos


A pesquisa analisou 21 dimensões econômicas e produtivas, passando por produção animal, leite, hortas, frutas, vegetais, vendas, autoconsumo, renda total e renda per capita. Os efeitos estatisticamente significativos não apareceram em todas elas. Eles se concentraram principalmente em atividades vegetais e na renda familiar.


Entre os resultados mais claros, a venda de frutas apresentou uma diferença expressiva entre beneficiários e grupo de comparação. A renda total das famílias atendidas também foi maior. O estudo ainda identificou resultados relevantes no autoconsumo de frutas e hortas, na venda de vegetais e na comercialização da produção total da propriedade.


Mais do que acumular percentuais, o que esses achados mostram é uma direção: a intervenção esteve associada a resultados sobretudo em cadeias em que produção, comercialização e consumo familiar se encontram. Isso ajuda a entender por que a ATER pode produzir efeitos econômicos tanto pelo que é vendido quanto pelo que deixa de precisar ser comprado porque foi produzido e consumido pela própria família.



Os dados também mostram que o efeito da ATER não é automático


Em 14 das 21 dimensões analisadas, as diferenças observadas não alcançaram significância estatística nos níveis adotados pela pesquisa. Isso inclui, por exemplo, parte dos indicadores ligados à produção animal, ao leite, a derivados e à renda per capita.


Esse resultado é importante para a prestação de contas. Ele impede que a assistência técnica seja apresentada como solução uniforme para todos os aspectos da vida produtiva. A avaliação mostra que os efeitos foram positivos, mas concentrados e heterogêneos.


As entrevistas ajudam a explicar essa heterogeneidade. Há agricultores que associam o atendimento a aumento de produtividade, redução de perdas, melhoria da qualidade dos produtos e novos canais de venda. Ao mesmo tempo, aparecem dificuldades de transporte, custos, falta de recursos, limitações de infraestrutura, problemas de comercialização e situações em que as orientações não puderam ser implementadas.


Ou seja: conhecimento técnico é parte da equação, mas não substitui as condições materiais necessárias para produzir, transportar, vender e investir.



Assistência técnica também aparece como ponte para mercados e organização


Um dos resultados complementares mais relevantes está na comercialização. Cerca de 60% dos beneficiários afirmaram que a ATER ajudou a acessar novos mercados. A venda porta a porta e as feiras aparecem com destaque, e também houve menções a mercados institucionais, como PAA e PNAE.


Esse ponto ajuda a ampliar a compreensão do que significa assistência técnica. A ATER não se resume a recomendar uma prática de cultivo. Ela pode envolver planejamento, organização da produção, controle de informações, adequação de produtos, orientação para comercialização e articulação com políticas públicas.


Também houve relatos de melhoria na atuação das OCS e na organização social dos grupos. Para parte das famílias, portanto, os efeitos percebidos ultrapassaram a unidade produtiva individual e alcançaram formas de organização coletiva.



Por que essa avaliação importa?


A utilidade de uma avaliação de impacto não está em produzir um veredito simples sobre se uma política “deu certo” ou “deu errado”. Ela ajuda a identificar em quais dimensões os resultados aparecem, onde são mais consistentes, quais grupos e atividades parecem responder melhor e quais barreiras limitam o alcance da intervenção.


No caso da Chamada Pública nº 05/2021, a avaliação encontrou efeitos especialmente ligados à comercialização, ao autoconsumo e à renda. Ao mesmo tempo, mostrou que continuidade da assistência, recursos produtivos, infraestrutura, logística e acesso a mercados seguem condicionando os resultados.


Publicizar esses achados é parte da própria prestação de contas do Monitora Orgânicos. O objetivo não é apenas mostrar o que foi feito, mas tornar acessível o conhecimento produzido a partir da ação pública.


Nos próximos artigos desta série, o Cegafi-UnB aprofunda quatro dimensões da avaliação: a metodologia usada para medir impacto, os resultados econômicos, as percepções dos agricultores e o papel das mulheres nas unidades familiares pesquisadas.



Fonte principal: CEGAFI-UnB. Estudo de Avaliação de Impacto - Chamada Pública 05/2021 da Anater no Estado do Ceará. Brasília, DF, 2026.


 
 
 

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